2Uma nova terapia que usa células imunológicas geneticamente modificadas levou à remissão pacientes de um tipo raro e agressivo de câncer no sangue, a leucemia linfoblástica aguda de células T (LLA-T). O tratamento foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade College London (UCL), no Reino Unido, e do Hospital Great Ormond Street (Gosh). As 11 pessoas que participaram do estudo, incluindo crianças e adultos, já haviam se submetido a outras abordagens terapêuticas, sem sucesso.A chamada terapia gênica pioneira mundial (BE-CAR7) utiliza células imunológicas modificadas para abordar a LLA-T, antes considerada intratável. A edição de bases é uma versão avançada da tecnologia CRISPR, que permite alterar com precisão letras individuais do código de DNA dentro de tecidos vivos. Segundo os pesquisadores, que relataram o tratamento na revista New England Journal of Medicine, a expectativa é “ajudar os pacientes a alcançarem a remissão, oferecendo uma nova esperança para famílias que enfrentam esse câncer agressivo”.Em 2022, pesquisadores do Gosh e da UCL administraram o primeiro tratamento do mundo feito com a tecnologia de edição de bases a Alyssa, uma menina de 13 anos da cidade inglesa de Leicester. Agora, outras oito crianças e dois adultos receberam a terapia. Desses, 82% alcançaram remissões significativas que permitiram a eles prosseguir para o transplante de células-tronco, já livres da doença.Além disso, 64% dos pacientes continuam em remissão, sendo que os primeiros a receberem o tratamento, há três anos, não têm qualquer sinal do câncer e levam uma vida normal, sem se submeter a outras terapias. Os efeitos colaterais esperados, incluindo baixa contagem sanguínea, síndrome de liberação de citocinas e erupções cutâneas, foram toleráveis, disseram os autores.Precisão“Anteriormente, mostramos resultados promissores com a edição genômica de precisão em crianças com câncer sanguíneo agressivo, e esse número maior de pacientes confirma o impacto desse tipo de tratamento”, disse, em nota, Waseem Qasim, que liderou a pesquisa e é professor de terapia celular e gênica na UCL. “Mostramos que células CAR-T universais ou ‘prontas para uso’, podem buscar e destruir casos muito resistentes de leucemia CD7 .”Embora a maioria das crianças com leucemia de células T responda bem aos tratamentos padrão, cerca de 20% podem não se beneficiar. “São esses pacientes que precisam desesperadamente de melhores opções, e essa pesquisa oferece esperança de um prognóstico melhor”, escreveram os autores do estudo.O oncologista Márcio Almeida, membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), explica que a terapia descrita tem várias diferenças em relação à quimioterapia e ao transplante tradicional. “Ao contrário da quimioterapia, que ataca indiscriminadamente células em divisão (saudáveis e cancerosas), a BE-CAR7 mira especificamente células T cancerosas por meio de marcadores reconhecíveis, o que pode reduzir danos colaterais ao restante do corpo”, diz.VelocidadeAlém disso, o médico destaca a velocidade e profundidade da remissão e a redução de riscos genéticos. “A edição por base-editing evita cortes no DNA e, consequentemente, pode reduzir o risco de danificar o genoma das células, algo que é preocupação em estratégias mais invasivas de modificação genética”, observa. “Essa abordagem representa uma forma de imunoterapia de precisão mais seletiva, com maior potência e potencialmente menos tóxica do que tratamentos convencionais.”Bob Phillips, consultor em oncologia pediátrica na Universidade de York, no Reino Unido, destaca, porém, que o tratamento com células CAR-T universais não é “uma bala de prata para todas as doenças de célula T recidivantes”. “Não se trata de uma terapia simples, de primeira linha para leucemia. Porém, essa é uma abordagem importante que nos permite uma linha extra de tratamento para alguns pacientes em situações altamente específicas”, diz Philips, que não participou do estudo.
Nova terapia se mostra promissora contra câncer raro
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