Brasília migrante: o mosaico de quem moldou a cultura da capital

Brasília nasceu do esforço de migrantes que vieram de diversas regiões para construir a nova capital do país. É por isso que, hoje, vivemos aqui um encontro de culturas, sotaques, miscigenações e tradições. Esse caldeirão cultural faz de Brasília um dos lugares mais diversos do Brasil.

Os chamados candangos chegaram com o objetivo de compor a mão de obra das construções, mas muitos decidiram ficar. Cada um trouxe na bagagem os costumes e saberes de sua terra natal. A cidade, que acolhe pessoas de todas as regiões, acabou moldando uma identidade própria, construída por meio de manifestações culturais que foram se adaptando e se reinventando ao longo do tempo.

Nossa capital não foi planejada para ser diversa — mas precisava ser assim. Brasília é, por natureza, uma cidade acolhedora, onde todos têm espaço. Um encontro de legados que se entrelaçam e se fortalecem a cada dia. Como diz Tamá Freire, cantora do Boi de Seu Teodoro: “Aqui é o espaço primordial para a conexão de manifestações culturais. As pessoas podem acessar tanto os patrimônios materiais quanto os imateriais e participar efetivamente da criação de políticas públicas que aumentem a qualidade e continuidade desses grupos culturais que tanto contribuem para o seu potencial artístico, social, econômico e turístico.”

Essa cidade tão amada é o elo que une as diversas culturas e povos do nosso Brasil.

Nascida junto com Brasília, a Associação Recreativa Cultural Unidos do Cruzeiro (ARUC) é símbolo dessa integração. Entidade voltada para o samba carioca, o esporte e a música, é também um marco da comunidade do Cruzeiro. Considerada patrimônio cultural imaterial da capital, a ARUC é sinônimo de resistência. Wellington Campos, o “Vareta da ARUC”, explica:

“A ARUC nunca foi só samba, sempre foi a parte cultural de todas as tribos que usam nossas dependências. Começou com o desfile das escolas de samba, fundadas pelos cariocas que vieram do Rio e decidiram criar a ARUC. Fundada em 21 de outubro de 1961, começou a desfilar em 1962, ganhou seu primeiro título em 1965 e já foi 31 vezes campeã do Carnaval de Brasília. Mas a ARUC é mais: é samba, esporte e cultura. Sempre recebeu de braços abertos outras manifestações, como rock, forró e bumba meu boi, respeitando a cultura popular de cada um.”

Vindos do Nordeste, o Trio Siridó é um grupo musical de Ceilândia — considerada o berço da cultura nordestina no DF. Fundado por José Torres da Silva, o grupo mantém viva a tradição do forró pé de serra. Ele explica:

“O forró faz parte da cultura brasiliense. A maioria dos migrantes é nordestina, ou filhos de nordestinos. Nas festas juninas, o povo mata a saudade de sua terra. Quem não é do Nordeste, com certeza tem algum parente que é. O forró está presente de norte a sul do Brasil. Para mim, as festas juninas são a melhor época do ano. É lindo ver gerações de uma mesma família dançando juntas.”

Também nordestina, Martinha do Coco veio de Pernambuco para Brasília aos 17 anos. Fixou-se no Paranoá, onde trabalhou como babá e gari até descobrir sua paixão pela música. Misturando maracatu, ciranda e o samba de coco, criou o “Coco do Cerrado” e tornou-se uma das principais referências culturais do DF. Foi reconhecida pelo Ministério da Cultura com o título de “Mestra da Cultura Popular”.

Ela destaca como a cultura pernambucana ajudou a moldar Brasília: “Participamos dos diálogos, levamos nossos conhecimentos. A cidade é um verdadeiro carnaval de diversidade.” Para Martinha, o título de mestra simboliza a honra e o respeito que Brasília tem pelos migrantes que ajudaram a construir sua identidade.

Com raízes maranhenses, o Boi de Seu Teodoro chegou a Brasília vindo do Rio de Janeiro, a convite do poeta Ferreira Gullar, para o primeiro aniversário da capital. Fundado por Teodoro Freire, cuja força inspirou tantos outros, o grupo é hoje Patrimônio Cultural Imaterial do DF. Tamá Freire, mestra do boi, afirma:

“O Boi é uma escola que há 62 anos prioriza a cultura popular como parte do desenvolvimento social e criativo do ser humano.”

Sobre a cidade como espaço de integração, ela completa: “Brasília é o centro da junção de todas as culturas — locais, regionais e até internacionais. Aqui é o lugar ideal para a conexão entre essas manifestações. E a interação com outras culturas é essencial para a troca de experiências e a manutenção de tradições. Nosso grupo é composto por pessoas de diferentes idades e saberes, o que só enriquece essa troca.”

Brasília é resistência, herança viva. Foi ocupada por migrantes que vieram para erguer seus prédios e acabaram fincando raízes. Eles ocuparam os centros com suas tradições e deram início a eventos culturais fundamentais para a cidade.

Brasília é céu aberto, acolhedora e bonita — é o abraço do diverso. Mais que capital, é o reflexo vivo da pluralidade que forma o Brasil.

Por Aline Teixeira do Jornal de Brasília

Foto: Gabriela Pires / Reprodução Jornal de Brasília

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