Combinação de Inteligência Artificial e Exame de Sangue Inédito Antecipa o Diagnóstico da Hanseníase

A detecção precoce da hanseníase no Brasil pode estar prestes a passar por uma transformação significativa. Uma nova abordagem diagnóstica, elaborada por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), une inteligência artificial, um questionário clínico e uma análise laboratorial inovadora para identificar a condição antes mesmo do surgimento de lesões severas. O método demonstrou potencial para reconhecer a doença em fases iniciais, momento em que os sintomas ainda são imperceptíveis e os exames habituais tendem a apresentar resultados negativos.

O estudo foi conduzido por especialistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e teve seus resultados divulgados recentemente na revista científica BMC Infectious Diseases. A coordenação do trabalho ficou a cargo do pesquisador Marco Andrey Frade. O objetivo central da equipe foi buscar alternativas para uma doença milenar que, apesar de dispor de um tratamento padronizado há mais de quatro décadas, ainda sofre com a carência de tecnologias sensíveis para um diagnóstico ágil.

Para testar a nova metodologia, os pesquisadores utilizaram amostras de sangue previamente coletadas durante um levantamento populacional sobre a Covid-19 na cidade de Ribeirão Preto. A estratégia consistiu em aproveitar esse material biológico para investigar a exposição dos indivíduos ao bacilo causador da hanseníase.

A triagem inicial combinou duas ferramentas principais. A primeira foi o Questionário de Suspeição de Hanseníase (QSH), composto por perguntas focadas em sinais neurológicos, que foi otimizado por um sistema de inteligência artificial denominado MaLeSQs. A segunda etapa envolveu um exame de sangue focado na detecção de anticorpos contra o antígeno Mce1A, uma proteína essencial que auxilia a bactéria a invadir e sobreviver nas células humanas.

O biomédico e coautor do estudo, Filipe Lima, esclarece que a principal vantagem desse novo biomarcador é a sua alta sensibilidade. Enquanto o exame tradicional foca no antígeno PGL-I e costuma apresentar resultados positivos apenas em estágios avançados da infecção, a nova análise verifica três classes distintas de anticorpos (IgA, IgM e IgG) contra o Mce1A. Essa ampliação permite diferenciar o contato prévio com a bactéria da infecção ativa de maneira muito mais rápida.

Os resultados práticos revelaram o impacto direto da inovação na vida dos pacientes. Das 700 pessoas inicialmente convidadas, 224 responderam ao questionário digital e 195 forneceram amostras de sangue para a nova testagem. Entre os participantes, 37 compareceram à avaliação clínica presencial. O cruzamento dos dados laboratoriais com a inteligência artificial resultou no diagnóstico de 12 novos casos de hanseníase. Segundo a equipe médica, tratava-se de indivíduos que não apresentavam sintomas evidentes e desconheciam sua condição de saúde.

Quando analisado isoladamente, o anticorpo IgM contra o antígeno Mce1A foi capaz de identificar grande parte dos casos. No entanto, ao unir o exame de sangue à análise da inteligência artificial, o método alcançou cem por cento de precisão, sinalizando corretamente todos os pacientes confirmados na consulta médica subsequente. O exame laboratorial funciona, portanto, como um filtro fundamental para direcionar os pacientes corretos ao atendimento especializado.

A hanseníase é classificada atualmente como uma doença determinada socialmente, termo que vem substituindo a nomenclatura de “doença negligenciada”. O Brasil é o segundo país com o maior número de ocorrências no mundo, ficando atrás apenas da Índia, e responde por quase a totalidade dos registros nas Américas. Os sintomas iniciais incluem formigamento, dormência e redução de sensibilidade na pele.

O mapeamento geográfico realizado durante o estudo também apontou que a distribuição dos casos na cidade ocorre de forma difusa, atingindo pacientes de variados perfis socioeconômicos. Esse dado reforça a necessidade de modernizar as estratégias de rastreio em todos os níveis da sociedade.

O próximo objetivo da equipe científica é avançar na validação dessas tecnologias em larga escala para viabilizar sua implementação no Sistema Único de Saúde (SUS). As técnicas utilizadas possuem baixo custo e exigem uma infraestrutura simples, já disponível na maioria dos laboratórios de análises clínicas. Além disso, os pesquisadores continuam trabalhando no aprimoramento do marcador Mce1A, investigando fragmentos específicos da proteína com a meta de tornar o teste ainda mais preciso para a população.

Por: Revista MARI.SSOL / Fonte: Agência SP

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