Sob a sombra de recentes declarações do presidente norte-americano Donald Trump sobre a possibilidade de tomar o controle da ilha, o governo de Cuba intensificou o monitoramento das forças armadas dos Estados Unidos na região. O cenário, que remonta a tensões históricas iniciadas após a Revolução de 1959, ganha contornos mais dramáticos atualmente devido ao aprofundamento do bloqueio econômico. Este endurecimento das sanções cortou o fornecimento de petróleo ao país caribenho, gerando uma crise severa que afeta diretamente o cotidiano e a saúde de milhões de cidadãos.
A falta crônica de combustível mergulhou a ilha em um estado de emergência energética, provocando apagões que ultrapassam 12 horas diárias na capital, Havana, e se estendem por dias inteiros nos municípios do interior. Durante um pronunciamento recente na Organização das Nações Unidas, o presidente Miguel Díaz-Canel expôs a face mais sensível deste cerco. Dados apresentados pelo mandatário revelam que mais de 96 mil cubanos, entre os quais 11 mil crianças, aguardam cirurgias adiadas pela falta de energia constante. Além disso, milhares de pacientes dependentes de tratamentos contínuos, como radioterapia e hemodiálise, enfrentam riscos crescentes pela interrupção de serviços médicos essenciais.
Diante desta vulnerabilidade econômica aguda, autoridades em Havana avaliam que o risco de uma incursão militar ou desestabilização aumenta. José R. Cabañas Rodríguez, atual diretor do Centro de Investigações de Política Internacional e primeiro embaixador de Cuba em Washington durante a gestão de Barack Obama, explica que a nação está preparada para este cenário. Ele ressalta que a proximidade física entre os países, agravada pela manutenção da base naval estadunidense em Guantánamo, exige vigilância contínua. O diplomata adverte, ainda, para o uso tático da desinformação bélica, sugerindo que o volume excessivo de rumores na imprensa internacional sobre uma possível invasão visa causar pânico e quebrar a resiliência da população local.
Apesar da retórica hostil, os canais diplomáticos permanecem ativos. Havana e Washington encontram-se em negociações para viabilizar acordos que permitam a importação de petróleo, uma necessidade vital que recebeu um alívio paliativo no final de março com a chegada de um navio russo carregado com 100 mil toneladas de óleo bruto. Cabañas enfatiza que o diálogo bilateral é histórico, porém, o país mantém a postura de negociar sob os princípios de igualdade e respeito, sem realizar concessões que firam a sua soberania.
Simultaneamente, o governo cubano busca dialogar com a opinião pública internacional e com setores da política norte-americana. Na última semana, Díaz-Canel reuniu-se com parlamentares do Partido Democrata dos EUA que criticam abertamente a atual política de Washington, classificando as consequências do bloqueio de combustível como uma grave crise humanitária.
Em um esforço estratégico para comunicar sua posição diretamente aos cidadãos dos Estados Unidos, o presidente cubano concedeu uma entrevista à emissora norte-americana NBC News no último domingo. Na ocasião, ele reiterou que qualquer agressão territorial será respondida com resistência armada firme, reafirmando uma postura de defesa civil e militar que tem marcado os 66 anos de embargo econômico impostos à nação caribenha.
Por: Revista MARI.SSOL / Fonte: Agência Brasil

