A descoberta de uma trufa de 213 gramas em Encruzilhada do Sul (RS), em janeiro deste ano, pode significar a abertura de uma nova fronteira para o agronegócio de luxo no país. O estabelecimento de um promissor mercado de trufas no Brasil, que vai muito além das trufas meramente “encontradas”, mas cultivadas.
O exemplar, avaliado simbolicamente em R$ 2.000,00, foi colhido na propriedade da família Zaffari, controlada por Gabriela Zaffari e seus primos Henrique, Luccas e Graciela. O empreendimento é acompanhado de perto pelo pai de Gabriela, o empresário Jodimar Zaffari, também conhecido por Jodi. O achado foi histórico, segundo o biólogo e doutor em Biologia de Fungos Marcelo Sulzbacher. Foi ele, inclusive, que ajudou a família de produtores a comercializar a trufa.
“O Jodi me perguntou o que fazer e eu pedi que me enviasse. Encaminhamos para o Chef Ivan [Ralston], do Tuju, em São Paulo, porque uma peça dessas tem de estar na mão de um chef renomado. É algo incrível de ser encontrado no Brasil. Certamente valeria uns R$ 5.000,00 em um leilão”, diz Sulzbacher.
Segundo o especialista, as trufas derivaram dos cogumelos. Na Europa, por questões climáticas e de frio, elas “se fecharam” e passaram a se formar como um tubérculo subterrâneo. É um fungo que tem cheiro e sabor. Existem vários fungos redondos parecidos, mas as trufas verdadeiras (do gênero Tuber) são as únicas que produzem esses aromas e o gás dimetilsulfeto.
Estes fungos, no entanto, não são naturais do Brasil. Em propriedades como a de Jodi Zaffari, elas vieram como intrusas nas raízes de nogueira-pecã que é originária dos Estados Unidos.
“A trufa não era um objetivo,” diz Jodi. “Ela é um prêmio, um achado em função do padrão de qualidade que a gente exerce na produção da pecã”, relata o empresário, que já exporta suas safras de nozes e espera colher até 300 toneladas do fruto nos próximos ciclos.
Por enquanto, a caça às trufas é um tipo de hobby. Mas, conforme for se desenvolvendo o mercado, o empresário pode mirar com mais afinco a este mercado.
Ambiente para a tartuficultura nacional
A propriedade de Jodi não é uma exceção. A ela contam outras mais, também na Região Sul, além de propriedades em São Paulo e Minas Gerais que, devido à altitude e ao frio, têm apresentado descobertas do fungo em cultivos como nogueiras-pecãs, carvalhos, pinheiros e avelãs. Em grande parte dessas descobertas, Sulzbacher estava presente, de alguma forma.
Não é por menos que o biólogo tornou-se uma das grandes referências em trufas e lidera a expansão da tartuficultura nacional através da consultoria e viveiros especializados de nogueiras com os fungos em suas raízes.
“É um mercado que ninguém acreditava. A Embrapa não dava atenção, mas eu pensava: ‘poxa, nós temos o ambientes aqui, será que não tem mesmo trufas?’”, diz Sulzbacher antes de se deparar com os primeiros exemplares em meados de 2016 no Brasil. Para ele, hoje não restam mais dúvidas. Temos sim, trufas.
E demanda de fato existe. Entre 2022 e 2024, as importações brasileiras do fungo saltaram de 133 quilos para 697 quilos, com o valor despendido subindo de US$ 44,0 mil (R$ 246,4 mil) para US$ 246,2 mil (R$ 1,4 milhão) no período, segundo dados da plataforma AgroStat, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), com base nos dados da Secretaria do Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Em 2025, foram 317 quilos por US$ 195,7 mil (R$ 1,0 milhão). Destas comercializações, a principal origem é a Itália. Os maiores volumes vêm de lá. No ano em que o Brasil mais importou trufas, em 2022, da Itália vieram 677 quilos por US$ 237,6 (R$ 1,2 milhão). Além da Itália, outras origens são Austrália, Irã e Espanha.
Dinâmica de mercado e demanda externa
Fazer parte de um mercado como esse pode ser impressionante. O mercado global de trufas frescas movimenta anualmente entre US$ 350 milhões e US$ 450 milhões (R$ 1,9 bilhão e R$ 2,5 bilhões), com projeção de crescimento de 8,9% ao ano até 2030, segundo a Mordor Intelligence.
No Brasil, a atividade deixa de ser um evento fortuito para se tornar um modelo de negócio estruturado, segundo Sulzbacher.
O aumento na demanda interna, somado ao custo de importação que alcançou a média de US$ 961,40 (R$ 5.383,80) por quilo na variedade australiana em 2024, impulsiona investidores a olharem para o solo nacional como alternativa viável e rentável.
Aporte de capital e o modelo de simbiose O investimento inicial para implementar um pomar trufado gira em torno de R$ 60.000,00 por hectare segundo Sulzbacher. As mudas, que custam entre R$ 430,00 e R$ 480,00 cada, passam por um processo rigoroso de laboratório onde a raiz recebe a inoculação exclusiva com o fungo.
O biólogo esclarece que o modelo de negócio entrega uma planta preparada especificamente para o produtor. “A semente é esterilizada para não haver contaminação e a raiz é inoculada apenas com a trufa”, detalha o especialista.
O especialista inclusive está guiando o cultivo de trufas com 15 produtores, na região serrana de São Paulo, em Itamonte (MG), na região da Serra da Mantiqueira, além de produtores no Rio Grande do Sul e no Paraná.
Rentabilidade e horizontes de produção
A rentabilidade é atraente, uma vez que o grama da iguaria no mercado interno é comercializado por aproximadamente R$ 8,00. Contudo, o retorno sobre o capital demanda paciência estratégica.
Marcelo identificou pelo menos quatro espécies crescendo em nogueiras no Brasil: a trufa Sapucay, nome comercial da Tuber floridanum, que tem notas de melaço e castanhas; a trufa Rubi, a Bianchetto, de origem italiana, adaptando-se bem na Mantiqueira, e uma quarta espécie sem nome popular ainda.
Já a Trufa Negra Europeia (Tuber melanosporum), de maior valor agregado, ainda está sem registro no país. O cultivo, contudo, gera ciúmes especialmente no grande produtor atualmente.
“Os europeus são muito bairristas, não querem que outros países cultivem para não perder o mercado”, diz Sulzbacher, lembrando que países como Chile, África do Sul e Austrália já romperam esse monopólio, e estão cultivando suas próprias trufas.
Perspectivas globais e condicionantes climáticos O cenário para os próximos anos indica uma redução na dependência de importações, especialmente em um contexto de escassez das espécies silvestres na Europa por efeito das mudanças climáticas.
A capacidade de países do hemisfério sul de fornecer trufas frescas durante a entressafra europeia serve de espelho para o agronegócio nacional.
Com o avanço das técnicas de inoculação e a adaptação das espécies ao clima tropical de altitude, a tartuficultura se posiciona como um ativo de alta rentabilidade, embora sujeita a riscos climáticos severos, como secas e excessos de chuva que impactaram as safras recentes no Sul do país.
Para Sulzbacher, trata-se de um negócio com muito potencial e que estava literalmente adormecido. “Muitos produtores já chegaram contar: ‘Poxa, a gente pisava em cima disso e não sabia!’”.
Por: Marissol Fontana
Fonte: Forbes