A interrupção da produção do medicamento Depakote Sprinkle 125 mg, utilizado no tratamento da epilepsia, tem mobilizado especialistas, entidades médicas e familiares de pacientes em todo o país. O produto, fabricado pela Abbott e composto por divalproato de sódio, deixará de ser produzido a partir de dezembro, o que pode impactar pessoas que dependem de suas características específicas para manter o controle das crises epilépticas.
A principal preocupação está no fato de não existir no mercado brasileiro outro medicamento que reúna a mesma concentração, a mesma forma farmacêutica e o mesmo mecanismo de liberação retardada. A cápsula contém microgrânulos que podem ser ingeridos inteiros ou misturados a pequenas porções de alimentos macios, preservando a eficácia da liberação gradual do princípio ativo.
Essa característica é considerada especialmente importante para crianças, pessoas com deficiência intelectual, pacientes com transtorno do espectro autista e indivíduos que apresentam disfagia, condição que dificulta a deglutição de comprimidos convencionais.
O divalproato de sódio é amplamente utilizado no tratamento de diferentes formas de epilepsia, incluindo síndromes mais complexas e de difícil controle, como as síndromes de Dravet e de Doose. Em muitos casos, o medicamento é empregado isoladamente ou combinado a outros anticonvulsivantes.
Embora existam versões líquidas e comprimidos de maior dosagem disponíveis no mercado, especialistas alertam que essas alternativas não reproduzem exatamente o comportamento farmacológico do Depakote Sprinkle. A absorção da substância ocorre de maneira diferente, o que pode alterar a concentração do medicamento no organismo e exigir ajustes individualizados de tratamento.
O receio de médicos e familiares é que a troca de formulação provoque o retorno ou o aumento das crises em pacientes que atualmente se encontram estabilizados. Em casos de epilepsia, a perda do controle das convulsões pode resultar em acidentes, quedas e situações de emergência que exigem atendimento imediato.
Outro ponto levantado por especialistas é que o Depakote Sprinkle é considerado uma opção relevante para pacientes submetidos à dieta cetogênica, estratégia nutricional frequentemente adotada em casos de epilepsia resistente aos medicamentos convencionais. A formulação não contém carboidratos, característica que nem sempre está presente em outras apresentações do fármaco.
A empresária Giovanna Uchôa está entre os familiares que acompanham a situação com preocupação. Seu filho, Zion, de três anos, diagnosticado com síndrome de Doose, passou a apresentar melhora significativa após iniciar o tratamento com a medicação. Segundo ela, o medicamento permitiu uma administração mais simples e confortável, já que os microgrânulos podem ser misturados a alimentos pastosos.
Diante do anúncio de descontinuação, a família decidiu adquirir um estoque para garantir a continuidade do tratamento por um período mais longo. O aumento da procura também provocou elevação nos preços encontrados em farmácias, tornando o acesso mais difícil para muitos pacientes.
A fabricante informou que a decisão decorre da interrupção da produção por parte de um fornecedor terceirizado responsável pela fabricação do medicamento. A empresa afirma que a medida não está relacionada a questões de qualidade, segurança ou eficácia e orienta pacientes a não interromperem o tratamento sem acompanhamento médico.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária informou ter sido comunicada sobre a descontinuação definitiva da fabricação e da importação do produto em junho de 2026. A agência destaca que o Depakote Sprinkle é o único medicamento comercializado no Brasil com divalproato de sódio na apresentação de 125 mg em cápsulas de liberação retardada.
Pelas regras sanitárias vigentes, produtos que não possuem equivalentes terapêuticos com a mesma apresentação devem permanecer abastecendo o mercado por um período determinado após a comunicação de descontinuação. O cenário, porém, continua gerando incertezas entre profissionais de saúde e famílias que dependem da medicação para manter a estabilidade clínica dos pacientes.
Enquanto não surge uma alternativa considerada equivalente, especialistas reforçam a importância de acompanhamento médico individualizado para qualquer mudança terapêutica, evitando riscos relacionados ao controle das crises epilépticas e à adaptação a novas formulações.
Por: Revista MARI.SSOL

