Os braços, o traço e a forma

Por Jorge Henrique Cartaxo e Lenora Barbo —

Especial para o Correio

Estética e Poder. São essas duas palavras que, de certa forma, acompanharam Brasília desde a sua concepção, na década de 50 do século passado, pela expressão política singular de JK e os traços suaves de Lucio Costa e de Oscar Niemeyer, até, praticamente, os dias de hoje.

“No princípio era o ermo/ Eram antigas solidões. O altiplano, o infinito descampado / No princípio era o agreste: O céu azul, a terra vermelho-pungente / E o verde triste do cerrado”. Os versos dos nossos poetas-maiores, Tom e Vinicius, na histórica Brasília — Sinfonia da Alvorada, são, sabemos hoje, uma delicadeza prenhe de ausências, só compreendidas pela generosa licença poética.

Se é verdade que Juscelino Kubitschek — e tudo aquilo que ele representava e liderava no reencontro do mundo com a civilização, a esperança e a democracia no esplendor da reconstrução do ocidente no pós-guerra — soube resgatar e materializar uma reflexão antiga do país de edificar a sua capital no interior do Brasil, não é menos verdade que mentes fortes, com mãos ágeis e ousadas, já não houvessem no Planalto Central inebriado suas retinas com tamanha beleza, desafios e encantamentos.

Se Hipólito da Costa — na então distante Londres — nas brasileiríssimas páginas do seu Correio Braziliense (1808 a 1823); os nossos representantes nas Cortes de Lisboa, em 1821; José Bonifácio, na Constituinte de 1823 na fundação do Brasil independente; o visionário erudito e viajante destemido Adolfo Varnhagen, em 1877; Luiz Cruls e a múltipla e qualificada equipe nas duas comissões que liderou (1892 e 1894) escreveram sobre esse lugar e palmilharam seus confins, é verdade também que muitos edificaram vilas, fazendas, arraiais e garimpos. Portanto não existia o ermo nem antigas solidões, como sugeriram nossos respeitáveis poetas, mas antes a presença brava de homens cultos e refinados, tropeiros destemidos e agricultores singelos, mas não menos nobres. Nesse sentido, são notáveis os trabalhos do historiador Paulo Bertran resgatando a história das civilizações preexistentes no Planalto Central do Brasil.

Milenar, no momento do desembarque dos europeus no que viria a ser o Brasil, a região era povoada por “indígenas” como os Akroá, Akawe-Xavante, Goyá, Anicum, Kayapó, Karajá, Avá-Canoeiro, Apinejá e Xerente. As primeiras expedições luso-brasileiras que alcançaram Goiás, adentraram a região entre os rios Tocantins, Araguaia e Paranaíba. Organizadas a partir da Bahia e de São Paulo, da década de 90 do século 16 em diante, buscavam no Brasil Central minerais e indígenas cativos. Os pioneiros dessa primeira conquista foram liderados por Luís Grou e Antônio Macedo, por volta de 1590 até 1593. Muitas expedições se seguiram, mas a colonização de Goiás só se deu mesmo com a chegada de Bartolomeu Bueno filho, o Anhanguera, quando localizou minas de ouro na década de 20 do século 18. Identificadas as minas de Cuiabá, no Mato Grosso, e de Vila Boa, em Goiás, uma nova ocupação do território se fez sentir até o final do século.

A pujança não durou muito, mas consolidou a presença e a permanência de muitos com o início de uma economia estruturalmente rural. Ao longo do século 19, entretanto, o Planalto, de certo modo, paralisou e empobreceu.

Somente nas primeiras décadas do século 20, com a inauguração de Goiânia — na década 30 —, as ferrovias chegando em Goiandira (1912), Ipameri (1913), Vianópolis (1921), Pires do Rio (1922), Silvânia (1930) e Anápolis (1935) — distante 45km de Goiânia e 135km de Brasília, a região viu renascer suas atividades comerciais.

Certamente, os primeiros passos de Juscelino por essas paragens, anunciando e convocando o país para o desafio de construir Brasília — o nome Brasil em latim —, fez surgir das matas o trepidar dos tratores, a poeira dos caminhões, o alvoroço no cerrado e o vermelho-pungente — como queria Vinícius — do barro protagonista nas suas estradas e descampados. Em seguida o cimento, o ferro, a brita, o sol, o calor e o suor. A voz diligente de Bernardo Sayão, a precisão demarcatória de Joffre Parada, os operários e os engenheiros, o lápis, o papel vegetal, a prancheta, as vozes, os risos, as noites e o frio. O martelo, a madeira e o prego. O piso, a coluna, a curva e o concreto, a parede, o andaime e o andar. O vidro e o ferro. O prédio, o monumento, o Palácio, a rua e a cidade.

A consistência amorosa de JK, o olhar suave de Oscar, a algaravia exuberante de Burle Marx, a formalidade elegante de Lucio Costa, o encanto vitral de Marianne Peretti, Athos Bulcão, Bruno Giorgio, Alfredo Ceschiatti e as formas em azulejos, granito, mármores e ferro. Sob a monumentalidade, o embate dos homens pelo poder e o mando, a fortuna e o dinheiro. A grandeza e o horror, a virtude e o demônio.

São dias de vidas e mortes, amores e solidão. São histórias desses tempos que queremos contar em crônicas, numa homenagem a essa ousadia moderna chamada Brasília, nessa parceria, que iniciamos hoje, com o Correio Braziliense e o nosso Instituto Histórico e Geográfico que, assim como a nossa capital, completamos 65 anos.

*O jornalista Jorge Henrique Cartaxo é diretor de Relações Institucionais do IHG-DF

* A arquiteta Lenora Barbo é diretora do Centro de Documentação do IHG-DF

Por Correio Braziliense

Foto: kleber sales / Reprodução Correio Braziliense

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