O Centro de Referência em Transtorno do Espectro Autista (Cretea) já atendeu 85 pacientes desde a inauguração. Vinculada à Secretaria de Saúde (SES-DF), a unidade oferece acompanhamento multiprofissional e atendimento integral a crianças de até 10 anos. Neste mês, o serviço passa a contar também com atendimento odontológico, o que amplia o cuidado com a saúde bucal dos pacientes.
“Quando implantamos o Cretea, já estruturamos uma programação de crescimento. A proposta é ampliar o serviço”Governadora Celina Leão
Hoje, o Cretea é o primeiro centro do Distrito Federal voltado exclusivamente a esse público e funciona como projeto-piloto. A iniciativa já tem previsão de expansão, com planos de ampliar a rede e fortalecer esse tipo de atendimento. “Quando implantamos o Cretea, já estruturamos uma programação de crescimento. A proposta é ampliar o serviço”, destaca a governadora Celina Leão.
O acompanhamento é feito por uma equipe multiprofissional, formada por psiquiatras infantis, pediatras, fonoaudiólogos, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas e assistentes sociais. “A gente busca suprir o que ainda não está disponível e que faz diferença no cuidado. Muitas crianças apresentam sensibilidade sensorial elevada, o que dificulta a avaliação da saúde bucal. Por isso, identificamos essa necessidade e já estamos viabilizando o atendimento odontológico, que deve começar ainda neste mês”, explica a gerente do Cretea, Viviane Felipe.
Pilares da orientação parental
A gestora pontua que o Centro de Referência trabalha com orientação parental, que tem sido um dos principais pilares do serviço. “Quando a família entende como lidar com a criança e como potencializar suas habilidades, os resultados aparecem. Já observamos avanços na comunicação e no comportamento”, explica Viviane. Segundo ela, as crianças participam de atividades em grupo, além das terapias individuais, o que estimula a socialização, o compartilhamento e o brincar.
“Mesmo com poucos meses de atendimento, já percebemos resultados expressivos nas famílias que aderem ao tratamento”Viviane Felipe, gerente do Cretea
O espaço também conta com uma cozinha terapêutica, equipada e conduzida por nutricionista especializada em autismo, onde as crianças participam do preparo de alimentos e interagem com a família. “Mesmo com poucos meses de atendimento, já percebemos resultados expressivos nas famílias que aderem ao tratamento”, destaca Viviane.
Atenta ao noticiário local, a dona de casa Gabriela de Anchieta, 35 anos, mãe de Emanuelly, 4, procurou a unidade básica de saúde (UBS) mais próxima em busca de atendimento para a filha. “Eu fiz a Carteirinha da Cegonha para ela, porque toda criança com autismo tem direito, e poucos dias depois, já na véspera de Natal, fomos chamadas para a entrevista aqui. Foi muito rápido”, conta Gabriela.
“A Manu tinha muita dificuldade de socializar com outras crianças, e esse era o meu maior medo. Eu pensava: será que minha filha não vai conseguir brincar com outras crianças? Ela só interagia com as irmãs, que são três. Quando chegamos aqui, ela foi avaliada e iniciou acompanhamento com a psicóloga, porque se agredia e também me batia”, relata Gabriela.
A mãe conta que ficava sem entender o que estava acontecendo, porque ainda não conhecia muito sobre o autismo. “Ela também começou com a fonoaudióloga, já que, aos 4 anos, ainda apresenta dificuldade na fala, e com a nutricionista, por ser muito seletiva com a alimentação”, diz Gabriela.
“Quando o paciente participa regularmente das terapias, que são semanais, já é possível observar evolução nos primeiros meses”Yasmin Faro, psiquiatra infantil
A mãe ressalta que a filha apresentou avanços significativos no desenvolvimento após o início do acompanhamento. “O que mais percebi de mudança foi na alimentação. A Manu aprendeu a comer e a experimentar novos alimentos. Na fonoaudiologia, o avanço foi muito grande. Antes, ela quase não se comunicava. Hoje, já desenvolveu a fala. É como se tivesse florescido”, conta. “Esse desenvolvimento é algo que me emociona. Ver minha filha evoluindo com o atendimento da rede pública, pelo SUS, é muito gratificante”, emociona-se Gabriela.
Como ter acesso ao serviço
O acesso ao serviço ocorre por meio do processo de regulação da Secretaria de Saúde, conforme o perfil de atendimento e a classificação de risco de cada paciente. Os usuários são encaminhados a partir das filas já existentes do Centro de Reabilitação (CER) e do Centro Especializado em Saúde Mental (Cesm), antiga fila do Centro de Orientação Médico Psicopedagógica (Compp).
A porta de entrada para o atendimento é a UBS. Cabe às equipes da atenção primária realizar a avaliação inicial e, quando necessário, encaminhar o paciente para a regulação. Com a estrutura especializada, o Cretea oferece diagnóstico, acompanhamento e intervenções adequadas para crianças com transtorno do espectro autista.
Estratégias de atendimento
A gerente do Cretea, Viviane Felipe, explica que, para dar mais agilidade ao atendimento, foi estruturado um modelo organizado de acompanhamento. “A criança entra, passa por uma avaliação e recebe uma caderneta com metas definidas com base em critérios científicos. Sabemos que o acompanhamento é contínuo ao longo da vida, mas nem todas precisam de todas as intervenções ao mesmo tempo”, ressalva.
Segundo Viviane Felipe, o período inicial de atendimento é de cerca de seis meses, prazo definido a partir de estudos que indicam ser possível alcançar metas específicas nesse intervalo. Após esse período, a criança é reavaliada. “Se atingir os objetivos, retorna para a UBS. Caso esteja próxima de alcançar as metas, o acompanhamento pode ser prorrogado”, explica.
Paralelamente, o Cretea busca fortalecer a atenção básica. O espaço leva conhecimento técnico e estratégias de atendimento para que as equipes possam dar continuidade ao cuidado e apoiar as famílias. A expectativa, segundo a gerente, é avaliar os primeiros resultados do projeto-piloto até o fim de julho, com base na taxa de crianças que atingirem as metas estabelecidas.
A psiquiatra infantil Yasmin Faro explica que o tratamento apresenta respostas positivas, especialmente quando há adesão da família. “Quando o paciente participa regularmente das terapias, que são semanais, já é possível observar evolução nos primeiros meses. O tempo de acompanhamento varia, em média, de seis meses ou mais, conforme a resposta de cada criança. Como cada paciente é único, o tratamento também é individualizado, voltado às dificuldades específicas de cada um”, afirma.
Segundo ela, o atendimento começa com uma avaliação completa, que envolve a equipe multiprofissional e a família. A partir disso, são definidas as principais prioridades de cuidado, organizadas por eixos de desenvolvimento, como fala, comportamento e alimentação.
“Nem todas as crianças seguem o mesmo tipo de terapia. Algumas se beneficiam mais de atendimentos em grupo, outras de forma individual. Há casos em que é preciso começar com atendimento individual para, depois, avançar para o grupo. Esse direcionamento é feito de forma contínua, conforme a evolução de cada paciente”, explica.
A médica ressalta que a atuação multidisciplinar é essencial para o desenvolvimento das crianças: “Cada criança tem necessidades específicas. O trabalho integrado permite oferecer um cuidado mais completo, respeitando o tempo, o perfil e o potencial de cada uma”.
Por:Marissol Fontana/Fonte: Agência Brasília