A cidade do Rio de Janeiro, marcada por abrigar historicamente o maior porto de chegada de africanos escravizados do mundo e possuir uma população majoritariamente afrodescendente, acaba de reconhecer o projeto “Negro Muro” como patrimônio cultural imaterial. A medida surge como uma resposta institucional e artística à evidente disparidade na representação de figuras negras nos espaços públicos da metrópole, que serviu como capital do país por quase dois séculos.
Apesar da profunda influência de intelectuais, cientistas, políticos e artistas negros na formação nacional, os números revelam um apagamento no cenário urbano. De acordo com um levantamento local, dos cerca de 360 bustos e estátuas espalhados pelas ruas e praças cariocas, menos de 10% homenageiam pessoas negras. Esse dado absoluto se traduz em apenas 29 homens e três mulheres eternizados em monumentos convencionais.
Foi justamente a percepção dessa lacuna que impulsionou a criação de uma nova cartografia da memória. Idealizado em 2018 pelo pesquisador Pedro Rajão, de 40 anos, e pelo artista visual Fernando Sawaya, de 39, o projeto desenvolve painéis em grande escala. O acervo atual conta com 80 murais que retratam aproximadamente 120 personalidades. Os organizadores mantêm um esforço contínuo para equilibrar a representação de gênero nas obras, uma vez que cerca de 60% das figuras estampadas até o momento são masculinas.
A escolha dos locais de pintura obedece a uma estratégia geográfica intencional. A maior parte das obras concentra-se na Zona Norte da cidade, afastando-se do tradicional circuito turístico da Zona Sul. O objetivo é valorizar áreas que abrigam uma parcela significativa da população, mas que historicamente não recebem o mesmo nível de atenção e investimento. As fachadas de escolas públicas, museus, estações de trem e até residências ganham cores vibrantes para homenagear nomes fundamentais.
Entre os retratados estão figuras nascidas no Rio de Janeiro, como o escritor Machado de Assis, e personalidades de outras regiões com forte conexão com a cidade, a exemplo da ativista e acadêmica Lélia Gonzalez. A iniciativa também valoriza as raízes de áreas específicas, como a Pequena África. Nesse território ancestral, a poucos minutos do Cais do Valongo, encontra-se um mural de 20 metros de extensão dedicado à escritora Conceição Evaristo. A obra ajuda a demarcar visualmente a herança cultural do entorno, reforçando a identidade local para moradores e visitantes.
O processo de criação envolve uma pesquisa minuciosa sobre a biografia de cada homenageado, guiando as escolhas estéticas de cada pintura. No entanto, houve exceções conduzidas pelo impacto do momento. O painel dedicado à vereadora Marielle Franco, por exemplo, foi elaborado de forma instintiva na manhã seguinte ao seu assassinato, refletindo a necessidade de uma resposta imediata àquela perda. Curiosamente, a semente do projeto como um todo remonta a uma figura que jamais visitou o Brasil: o músico nigeriano Fela Kuti. A busca por homenageá-lo uniu os fundadores anos antes da formalização do projeto, resultando no primeiro trabalho conjunto da dupla.
Atualmente, a viabilidade das produções depende de uma combinação de recursos públicos, parcerias com empresas privadas e campanhas de financiamento coletivo. Além das intervenções urbanas, a iniciativa promove atividades educativas, visitas guiadas e lançamentos editoriais, além de planejar a expansão para outras capitais, como São Paulo e Brasília. O pilar fundamental do trabalho permanece sendo a valorização estética e histórica. A proposta é afastar a narrativa de dor frequentemente associada à trajetória da população negra, optando por recontar essa história sob a ótica da beleza, do reconhecimento e da celebração daqueles que ajudaram a erguer a sociedade brasileira.
Por: Revista MARI.SSOL