A diretora argentina Lucrecia Martel lança luz sobre uma realidade complexa da sociedade de seu país em sua primeira incursão no gênero documental. Intitulada “Landmarks”, a obra, que conquistou o prêmio de melhor filme no festival BFI de Londres no último ano, parte do assassinato do líder indígena Javier Chocobar, ocorrido em 2009, para investigar disputas territoriais e o preconceito histórico. Aos 59 anos, a cineasta utiliza o caso para propor uma reflexão estrutural sobre a identidade nacional argentina e a invisibilização sistemática das comunidades nativas.
O ponto central da narrativa jornalística e documental é o crime contra Chocobar, um ativista de 68 anos da comunidade Chuschagasta, pertencente ao povo Diaguita, na província de Tucumán. O homicídio aconteceu no dia 12 de outubro de 2009, quando o empresário do setor de mineração Darío Luis Amín, que reivindicava a posse da região, invadiu o local acompanhado de dois ex-policiais, Luis Humberto Gómez e Eduardo José del Milagro Valdivieso Sassi. O próprio empresário filmou o momento em que Gómez abriu fogo contra o grupo indígena, que se encontrava desarmado. Chocobar perdeu a vida e outros membros ficaram feridos após uma sequência de disparos.
O processo judicial demorou quase uma década para ser iniciado. Durante as audiências, Martel e sua equipe acompanharam os desdobramentos de perto. A diretora relatou ter presenciado atitudes no tribunal que evidenciavam um forte distanciamento social, caracterizado por comportamentos paternalistas e pela tentativa de invalidar a presença secular e a própria existência dos povos originários no país. Os três réus foram inicialmente condenados, mas recorreram em liberdade. Darío Luis Amín faleceu de complicações relacionadas à Covid em 2021, enquanto a Suprema Corte ordenou, no final do ano passado, a prisão dos dois ex-policiais. Apesar do desfecho criminal, a comunidade ainda busca o reconhecimento oficial de suas terras.
A pesquisa para o documentário exigiu cerca de 15 anos de dedicação. O interesse de Martel surgiu de forma espontânea ao encontrar o vídeo do crime na internet enquanto preparava seu aclamado longa-metragem “Zama”. A motivação inicial era criar um acervo para auxiliar os habitantes locais, uma ideia que posteriormente evoluiu para a produção audiovisual. Ao analisar o cenário sociopolítico, a cineasta argumenta que a população do país vive uma forte alienação em relação aos direitos indígenas, impulsionada pela crença de que a Argentina seria uma nação puramente moldada pela imigração europeia. Para a realizadora, é imperativo abandonar essa visão idealizada e assumir de forma genuína o pertencimento à América Latina.
Embora seja uma mulher branca abordando temáticas indígenas, a diretora defende a diversidade e a coragem na criação cinematográfica. Ela reconhece a importância contemporânea do debate sobre apropriação cultural, mas ressalta que as discussões teóricas não devem inibir os realizadores de contar histórias essenciais sobre grupos diferentes de seus próprios recortes sociais. Como forma de devolver o protagonismo aos envolvidos e garantir um impacto real, Martel repassará os direitos da obra para a comunidade Chuschagasta. Segundo a visão do projeto, o documentário tem como objetivo principal contribuir para a saúde da sociedade local, que há muito tempo lida com a negação e a indiferença diante das legítimas reivindicações de seus povos originários.
Por: Revista MARI.SSOL